segunda-feira, 8 de junho de 2015

:: Conto :: A diva da noite macabra : Pagando dividas

                                                         



                                     Pagando dívidas 


O som do despertador invade o quarto, Olívia não se incomoda, perdida em pensamentos permanece olhando a rua. Vê quando seu irmão estaciona, ao descer ele a vê na sacada acena e entra. 

Olívia vai até  banheiro e constata   o efeito da noite mal  dormida, nada que um bom óculos escuros não de jeito. 

Seu irmão Gerson esta na sala e a recebe com um abraço. Mesmo com a insistência do irmão e de Júlia sua fiel ajudante na organização da casa, Olívia não come nada, quer apenas fazer o que tem para fazer e que este dia termine. 


No carro Gerson começa a numerar as qualidades de Ivan, Olívia agradece em pensamento pelos óculos, assim pode disfarçar seu descontentamento com o irmão. Ela mais que ninguém conhecia as qualidades de Ivan, afinal foi casada com ele por dez anos, mais que suas qualidades conhecia seus defeitos mas quem lembra deles nessas horas? 

Gerson estaciona em frente ao longo muro branco, Olívia olha ao redor e reconhece alguns familiares e amigos de Ivan mais o que chamou mesmo a sua atenção era o numero de pessoas que passava pelo portão, e se pergunta se todas essas pessoas vieram se despedir do seu marido. Algumas pessoas se  aproximam dando-lhe os pêsames, Olívia permanece em silencio. 

Entra  na sala em que o marido esta sendo velado, se aproxima do caixão e mais uma vez agradece pelos óculos, não consegue acreditar que aquela coisa com um cheiro  repugnante é o seu marido, vinte e sete anos de diferença e nunca o vira tão frágil.

Olha as mãos cruzadas sobre o busto e vê a aliança, diferentemente das outras pessoas Ivan a usava na direita, Olívia a puxa e se surpreende com a facilidade com que ela sai,na mão esquerda esta um  anel 18k cravejados de diamantes e com uma linda pedra safira azul, Olívia tenta tira-lo ao contrario da aliança esse não sai, até parece que a mão inchou de repente. Gerson vendo
o esforço da irmã oferece ajuda:

-Não. Era importante pra ele, talvez seja sua vontade leva-lo.

Durante o sepultamento lindas palavras são ditas, umas em homenagem a Ivan outras de conforto a jovem viúva. 

Todos já tinham ido embora. Só Gerson e Olívia observam os coveiros terminarem seu trabalho:

-Vamos Olívia, já é tarde você precisa comer e descansar.

-Pode ir, eu vou de táxi.

Gerson conhecia bem a irmã para saber que não adiantava insistir.

Sozinha Olívia se aproxima da lapide, tomando cuidado para não pisar na terra ainda fofa, e inicia um monologo:

-Dez, dez anos  da minha vida esperando por esse momento. Dez anos esperando para me ver livre de você. Não preciso mais abusar da maquiagem para disfarçar as marcas, não preciso mais fingir felicidade para sua família e amigos nem inventar desculpas para fugir do meu irmão e de suas perguntas de como vai minha vida. Agora eu sou livre. Melhor ainda:livre, jovem e rica. Sabe o que é mais irônico nisso tudo? você me mantinha presa, me vigiava e a menor suspeita de que estava olhando para os lados me espancava, tudo isso por medo de ser traído. Nunca que você, um machista  orgulhoso iria permitir uma coisas dessas. Mal sabia você que durante esse tempo todo sua cama, que você fez questão de importar, vem sendo o lugar onde sou mais feliz, o lugar onde a Júlia me faz sentir o que você nunca foi capaz. Você não imagina o quanto rimos de você naquela cama. Porque você acha que eu insisti tanto para traze-la para trabalhar em casa? Como que queria ver sua cara agora.

Olívia gargalhava histericamente:

-Nojo, tudo que sinto por você é nojo.

Numa tentativa de chutar a lápide Olívia tropeça  e  derruba os óculos em cima da terra fofa, tenta pegar e fica com o salto preso na terra, tentando se soltar se desequilibra e  fica agora com os dois pés presos  e sente afundar ainda mais. Grita por socorro, olha para os lados e não vê ninguém, desesperada começa a cavar. e não percebe que esta sendo observada até ouvir o barulho da bengala. Olívia se levanta e vê um idoso de terno todo branco em cima da lapide vizinha:

-Por favor, me ajude. Meus pés estão preso, chame alguém, por favor.

O idoso sorri mas olhar é frio, maldoso. Olívia sente um arrepio pelo corpo todo.

-Porque ajuda menina? você não precisa de ajuda. Chegou a hora de pagar suas divida.

Olívia não tem tempo de perguntar do que ele esta falando, sente algo no tornozelo. Mãos sujas,geladas,inchadas e com um anel de ouro cravejados de brilhantes e uma safira azul, a esta puxando. Em pânico Olívia se debate e grita por socorro:

-Não adianta gritar menina. ninguém vira.

-Não deixa ele me levar, por favor, eu não fiz nada, eu não fiz naaadaaaaaaa.

-Não fez nada? hora menina, tente se lembrar.

-Porque eu o trai? Eu o trai mas o que ele fez comigo por dez anos foi castigo suficiente. Me tira daqui.

Olívia já tem terra até os joelhos.

-Você acha mesmo que essa é minha preocupação? Quem trai quem ou porque alguém trai? Há minha menina, não claro que não,isso é conversa para comadres e eu tenho mais o que fazer.

-Eu faço o que você quiser, dou o que quiser, mas não me deixa morrer aqui, não deixa ele me levar.

-Não a nada que você possa fazer e a única coisa que poderia me dar já me pertence.

-Pelo amor de Deus, tenha misericórdia.

O idoso fica ereto e larga a bengala, seus olhos adquirem um tom vermelho, vapor sai por todo o seu corpo e quando fala é como se mil vozes falassem junto.

-Não coloca o sujeito no meio. Quando em uma de suas tórridas tardes de amor não foi a ele que você prometeu a sua alma.

Já com terra na altura dos seios Olívia chora desesperada.

 -Foi uma brincadeira, sem querer, não falei por mal.

-Devia ter cuidado com o que fala. Nunca se sabe quem pode estar ouvindo.
Aos poucos o idoso volta a sua  frágil aparência.

-Esse foi um dos meus melhores  negócio, você vendeu seu alma para ficar com sua doce Júlia e com todo o dinheiro do seu marido e o teve por 48 horas... mas teve e seu marido vendeu a dele para passar a eternidade com você. Todos tivemos o que queríamos.Viu só? Não sou tão mal assim.

Com a terra prestes a cobrir todo o rosto Olívia ainda o vê se  despedir.

-Te vejo em casa, minha menina.

E com uma piscadela o frágil senhor bate a bengala no chão, um buraco se abre e em meio a fumaça e uma luz alaranjada desaparece.

Gerson ainda procurou pela irmã mas acabou por aceitar, que tomada pela dor da perda Olívia tenha saído sem rumo, Gerson nunca se perdoou por tê-la deixado sozinha.

Muitos anos depois pessoas relatam que ao visitar os túmulos de seus entes queridos ouvem o que parece um choro de mulher, seguido de uma gargalha de homem.




Janaína Silva:
Janaina Silva "Todas as noites eu sonhava que caia em um buraco e era um buraco tão fundo que parecia não ter fim.E de tanto cair acabei por perceber que eu não caia...eu voava!Meus olhos determinam onde meus pés podem chegar e meus sonhos dizem que posso ir além"Facebook